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Dados subestimados: por que o turismo religioso brasileiro é maior do que os números oficiais mostram

Diego Velázquez
Diego Velázquez 17 de julho de 2026
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7 Min de leitura
Daugliesi Giacomasi Souza
Daugliesi Giacomasi Souza
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O debate em torno dos números oficiais do turismo religioso brasileiro ganhou força recentemente. Especialistas do setor, como aponta Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, já identificam inconsistências claras na metodologia usada pelo governo desde 2005. Apenas o Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, recebeu cerca de 10,5 milhões de visitantes em 2025, número que já representa mais da metade do total nacional de 17,7 milhões de viajantes por motivos religiosos estimado pelo Ministério do Turismo para todo o país. 

Contents
O que os números oficiais dizem sobre o turismo religioso?Quando um único destino já desafia a estatística nacionalA economia informal que não entra na conta oficialPor que atualizar esses dados importa para além da estatística?

Confira a seguir por que os números do turismo religioso brasileiro provavelmente são bem maiores do que aparentam nos relatórios divulgados oficialmente.

O que os números oficiais dizem sobre o turismo religioso?

O Ministério do Turismo estima que cerca de 17,7 milhões de brasileiros viajam anualmente por motivos religiosos, movimentando algo em torno de R$ 15 bilhões na economia do país, entre gastos com hospedagem, alimentação, transporte e comércio local. Desse total, aproximadamente 10 milhões seriam excursionistas, que não pernoitam no destino visitado, enquanto os demais 7,7 milhões permanecem ao menos uma noite na cidade de destino antes de retornar para casa. Esse recorte, embora expressivo, concentra-se quase exclusivamente em manifestações católicas de grande visibilidade nacional, deixando de fora com frequência celebrações de outras tradições religiosas e festividades regionais menores, mas igualmente recorrentes no calendário de cada estado.

Esses números, conforme detalha Daugliesi Giacomasi Souza, ainda funcionam como principal referência oficial do setor, apesar de terem como base levantamentos originalmente publicados em 2005 e apenas parcialmente retomados em 2015. Especialistas em turismo religioso já apontam publicamente essa defasagem metodológica, argumentando que o crescimento do segmento nos últimos anos não foi acompanhado por uma atualização proporcional na forma de medir esse fluxo de visitantes. Romarias como o Círio de Nazaré, no Pará, e a Romaria do Divino Pai Eterno, em Goiás, somam multidões em poucos dias de celebração, mas seus números costumam ser tratados como eventos isolados, e não incorporados de forma sistemática ao cálculo nacional consolidado.

Quando um único destino já desafia a estatística nacional

Uma pesquisa técnica conduzida por Sidnésio Moura, turismólogo à frente do Fórum Nacional de Turismo Religioso, reuniu dados diretamente de santuários, prefeituras e veículos de comunicação para demonstrar a distância entre a estimativa oficial e a realidade de apenas quatro grandes manifestações religiosas do país. Somados os números de Aparecida com os de outros polos consolidados, como Juazeiro do Norte e Canindé, no Ceará, e Nova Trento, em Santa Catarina, o resultado já se aproxima perigosamente do total anual estimado para todo o Brasil.

Daugliesi Giacomasi Souza
Daugliesi Giacomasi Souza

Na leitura de Daugliesi Giacomasi Souza, esse tipo de comparação evidencia uma lacuna que vai muito além de um simples erro de cálculo, sugerindo que centenas de outros destinos menores, espalhados por praticamente todos os estados brasileiros, seguem invisíveis nas estatísticas oficiais. Festas de padroeiros, romarias regionais e celebrações locais de menor porte, mas com público fiel e recorrente, dificilmente aparecem em qualquer levantamento nacional consolidado.

A economia informal que não entra na conta oficial

Cidades como Aparecida e Nova Trento têm parte relevante de sua economia local dependente, direta ou indiretamente, do fluxo de peregrinos, sustentando comércio de artigos religiosos, hospedagem familiar e serviços informais de alimentação que raramente emitem qualquer documento fiscal rastreável. Vendedores ambulantes de terços, imagens de santos e lembranças de viagem, quartos alugados informalmente dentro de residências durante períodos de romaria e pequenos restaurantes familiares montados apenas nas datas de maior movimento compõem uma cadeia econômica robusta, mas praticamente invisível para qualquer fiscalização ou levantamento estatístico. Milhares de famílias tiram desse tipo de atividade seu sustento principal, em um mercado que segue fora do radar de qualquer estatística oficial de faturamento do setor.

Esse cenário, como pondera Daugliesi Giacomasi Souza, dificulta ainda mais qualquer tentativa de dimensionar com precisão o real impacto econômico do turismo religioso brasileiro, já que boa parte do dinheiro movimentado circula fora dos canais formais monitorados pelo governo. Sem contabilizar esse tipo de economia paralela, qualquer estimativa nacional tende a subestimar significativamente o tamanho real do setor, um problema que se repete, em menor escala, em praticamente todos os destinos de fé espalhados pelo país.

Por que atualizar esses dados importa para além da estatística?

Discussões recentes promovidas em eventos oficiais do setor, como o Salão do Turismo, já colocam a governança de dados como prioridade para quem planeja políticas públicas de infraestrutura, segurança e capacitação profissional nesses destinos. Sem números confiáveis, cidades que recebem milhões de peregrinos por ano correm o risco de continuar recebendo investimento público proporcional a estatísticas defasadas, e não à demanda real enfrentada em campo, o que se traduz em estradas de acesso saturadas, redes de saneamento insuficientes e equipes de segurança dimensionadas para um público muito menor do que o efetivamente presente durante grandes celebrações.

Sob o entendimento de Daugliesi Giacomasi Souza, dados mais precisos ajudariam também o setor privado a planejar melhor hospedagem, transporte e serviços voltados a esse público, hoje frequentemente dimensionados com base em projeções pouco confiáveis. Redes hoteleiras, agências de viagem e empresas de transporte que atuam perto de grandes santuários poderiam antecipar picos de demanda com mais precisão, reduzindo tanto a superlotação em datas de pico quanto a ociosidade em períodos de menor movimento. Reconhecer a real dimensão do turismo religioso brasileiro deixou de ser apenas uma questão estatística e passou a representar uma necessidade estratégica para o desenvolvimento sustentável desses destinos.

 

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