Desde 2015 tramita na Agência Nacional de Aviação Civil o pedido de homologação, do aeródromo de Bento, para que a estrutura possa ser operada comercialmente. Pandemia da Covid-19 atrasou processo que deve ter continuidade nas próximas semanas

A estrutura do aeródromo de Bento Gonçalves, que se localiza no bairro São Vendelino – entrada para a Linha Eulália – e que é popularmente conhecida como “aeroclube”, pode ser transformada em um aeroporto habilitado, inclusive, para operar voos comerciais. Para isso, entretanto, precisam ser cumpridas exigências, principalmente as da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), fazendo com que o local disponha da estrutura necessária ao atendimento do público e das normas de segurança aérea. Um pedido de homologação, feito pela Prefeitura de Bento ainda em 2015, tramita no órgão e deve ter novos desdobramentos em breve, segundo informou a assessoria da agência nesta sexta-feira, 5.

A administração municipal tem até a próxima quinta-feira, dia 11, para responder à Anac se tem interesse em dar continuidade ao processo de inscrição cadastral. Caso a resposta seja afirmativa, técnicos da agência vão acertar com representantes do Executivo uma data para realização do que a assessoria definiu como “inspeção aeroportuária”. O procedimento só não foi realizado em 2020 devido à pandemia da Covid-19, já que o governo de Bento encaminhou, no começo do ano, parte dos documentos solicitados. No âmbito da municipalidade, pelo que diz o secretário de Governo, Henrique Nuncio, existe, sim, o interesse em dotar o município de estrutura aeroportuária com viés comercial.

O secretário garantiu que a prefeitura “está agindo junto a Anac para que seja realizada esta vistoria o quanto antes para, então, conseguirmos dar prosseguimento ao processo burocrático e a sequência para a disponibilização de mais este serviço à população”. Nuncio diz, inclusive, que já existe até um projeto para construção do que viria a ser o terminal de passageiros, uma das estruturas necessárias para transformar o aeródromo em um aeroporto, com voos comerciais regulares.

Transformação faz parte do planejamento do Comitê Bento +20

A intenção de fazer com que a Capital Nacional do Vinho disponha de um aeroporto com condições de receber executivos e empresários em aeronaves de maior porte, mas principalmente voos comerciais regulares ligando Bento com a capital, Porto Alegre, ou com outras cidades gaúchas e até de fora do estado, de forma que facilite o deslocamento do turista, é uma das propostas do Comitê Bento +20, trabalho apresentado no formato de livro lançado no ano passado.

O presidente do Bento +20, empresário Milton Milan, adverte que são necessários alguns investimentos para atingir o objetivo, especialmente na construção do terminal de passageiros e implantação da iluminação da pista, entre outras providências. “Essa planificação toda está contemplada no nosso Masterplan”, disse, referindo-se ao trabalho elaborado por cerca de 200 pessoas chamadas para pensar o futuro de Bento Gonçalves. E esclareceu que estas obras são de responsabilidade da administração municipal, na forma de contrapartida ao dinheiro federal aplicado na ampliação e no asfaltamento da pista do aeródromo.

A melhoria na infraestrutura, a homologação da Anac e a implantação de linhas aéreas são muito importantes para Bento Gonçalves, na opinião de Milan. “Principalmente pela vocação turística do município. Uma linha aérea até Bento facilita o deslocamento do turista, já que esta é uma atividade que influencia na economia da cidade”, completa. Ele até acredita que não haverá demanda para manter voos diários, logo no começo, mas diz que esta é uma tendência que pode se consolidar com o passar do tempo. Pelo que consta no Masterplan do Bento +20, as principais obras para melhoramento da estrutura têm prazo para acontecerem.

“Depende de uma série de fatores a gente ter, aqui, voos regionais. A comunidade nem está pleiteando, ainda, porque não tem a estrutura necessária, e isso passa desde serviços de combate ao fogo, abastecimento das aeronaves, controle de tráfego, melhoria do acesso, entre outras obras”, afirma o presidente do Comitê. “No momento em que isso houver, daí sim a comunidade, com certeza, vai se mobilizar para que seja implantado serviço de transporte aéreo a partir de Bento”, conclui.

É primordial que Bento faça parte do contexto da estrutura aérea comercial porque o município é um dos principais polos de feiras do país e tem a sua economia fortemente alicerçada no turismo

Flavio Savaris
Ex-presidente do Aeroclube de Bento Gonçalves

Administração municipal espera a homologação

O secretário de Governo na prefeitura de Bento, Henrique Nuncio, confirma: “a vontade do município é converter a situação de aeródromo em aeroporto, e assim poderemos ofertar para empresas que possuem aeronaves compatíveis com a nossa pista para voos regionais. Ainda pleiteamos junto a Anac esta habilitação”, disse. De acordo com Nuncio, até já foram realizados contatos com empresas aéreas como a Azul e a Passaredo, no início do ano passado, negociações que foram prejudicadas pela pandemia da Covid-19 e devem ser retomadas neste ano, “assim que obtivermos uma posição da Anac a respeito da situação local”.

De acordo com o secretário o maior interesse é a implantação de uma ligação área com Porto Alegre. Se houver demanda, segundo ele, os voos pode contemplar outras cidades, até de fora do Rio Grande do Sul. Ele reforça que, no entendimento do governo municipal, “Bento Gonçalves possui plenas condições de receber voos comerciais das companhias aéreas”. Ele ressalta, entretanto, “que ainda se faz necessária à habilitação por parte da Agência Nacional da Aviação Civil, a Anac, para posteriormente buscarmos a construção do terminal de passageiros, obra para a qual já possuímos projeto para construção”.

E completa reafirmando que só depois da homologação é que serão retomadas ou intensificadas as negociações com as companhias aéreas, “para que passem a atuar em nossa cidade. A municipalidade está agindo junto a Anac para que seja realizada esta vistoria o quanto antes, para, então, conseguirmos dar prosseguimento aos processos burocráticos e a sequência para a disponibilização de mais este serviço”, diz Nuncio.

Importante

  • Terminal de passageiros:
  • Projeto: até 2021
    Execução: até 2023
  • Iluminação: até 2023
  • Melhoria do acesso: até 2023
  • Pelo que consta no planejamento, são obras a serem executadas pela administração municipal de Bento Gonçalves por meio de licitação pública ou parcerias público-privadas

Pista foi inaugurada em 2015

A atual pista do aeródromo de Bento Gonçalves foi construída entre março de 2015 e começo do ano seguinte, sendo inaugurada no dia 12 de março de 2016. A extensão passou de 900 metros para 1.380 metros e a largura mais que dobrou, de 20 metros para 23 metros. O piso, antes de chão batido, recebeu uma camada de 6.800 toneladas de asfalto e pode receber, desde então, aeronaves com até oito toneladas, que são os aviões executivos e de pequeno porte, com cerca de 10 passageiros no caso de voos regulares e comerciais.

Da obra também constou a construção de um pátio para manobras de aeronaves com uma área asfaltada com cerca de oito mil metros quadrados, espaço que antes não existia. Com a ampliação da pista, o aeródromo de Bento Gonçalves passou a estar em conformidade com as normas da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para operação de vôos executivos. Na publicação oficial do município, relativa à inauguração, a prefeitura assegurava que “a nova pista de pouso e decolagem é a primeira etapa rumo ao futuro aeroporto de Bento Gonçalves”.

Ao mesmo tempo, dizia que após a liberação oficial da pista, pela Anac, o próximo passo seria a construção de um terminal de passageiros, e que recursos para a obra já estariam sendo buscados junto ao Ministério do Turismo. A festa de inauguração teve um publico de cerca de 10 mil pessoas e shows artísticos e aéreos, além de exposição de aviões e helicópteros.

Anac espera pela posição do governo

Uma vistoria da Agência Nacional de Aviação Civil no aeródromo de Bento para verificar as condições e o que falta ser feito para homologação da estrutura e o encaminhamento de providências para transformar em aeroporto comercial dependem do governo municipal. A assesoria de imprensa do órgão lembra que o aeródromo foi cedido à União em 2014, e está registrado como privado, sendo vedada a exploração comercial. “No final do mês passado a Anac encaminhou um documento questionando o interesse na continuidade do processo de inscrição cadastral, com prazo para manifestação até o dia 11, quinta que vem. Caso a resposta seja positiva, a área técnica da agência discutirá, com a Prefeitura, a data próxima possível para a inspeção aeroportuária”, disse a agência”, em nota.

Retomados os voos regionais

A Azul restabeleceu na segunda-feira, dia 1º, os serviços aéreos a partir de Caxias do Sul, Santo Ângelo e Uruguaiana, no interior do Rio Grande do Sul. Os novos voos observam os protocolos de higiene e segurança adotados para prevenir usuários e colaboradores do contágio com o coronavírus. Caxias do Sul contará com voos quatro vezes por semana para Viracopos, em Campinas, interior de São Paulo, de onde o passageiro poderá se deslocar para qualquer lugar do Brasil. As ligações entre Caxias e Viracopos serão feitas com aeronaves modelo Embraer E1, com capacidade para até 118 pessoas. Tanto Caxias do Sul, quanto Santo Ângelo e Uruguaiana, também passarão a ter operações diárias para a capital, Porto Alegre, a partir de março próximo.

Azul nega interesse em Bento

A gerência operacional da empresa Azul Linhas Aéreas descarta a possibilidade de implantar voos a partir de Bento Gonçalves, como os que estão sendo retomados em Caxias do Sul. Por meio da assessoria de comunicação a companhia lembra que tem posição consolidada naquela cidade, onde o aeroporto tem condições de receber aeronaves de grande porte, aumentando a capacidade de oferta de assentos para a região. “Diante da proximidade com Caxias e a não possibilidade de operação com aviões maiores, a cidade de Bento Gonçalves não está nos planos de operação da Azul neste momento”, diz a breve nota da assessoria de comunicação da empresa quando questionada sobre a possibilidade. A Azul Linhas Aéreas tem sede na cidade de Campinas, interior de São Paulo.

Fotos: Divulgação