O ano de 2020 ficará marcado na história pelo Covid-19. E se no passado apenas uns poucos testemunhos sobreviviam ao tempo para deixar registrado os grandes acontecimentos, hoje a tecnologia permite que cada pessoa conte como teve a vida impactada pela pandemia. Entre todos os grupos afetados pela Covid-19, um especificamente teve seus níveis de estresse elevados acima da média: os vestibulandos. Entre eles, é massiva a angústia de encarar as provas que definirão seu futuro uma vez concluído o Ensino Médio. Todos sentiram a ansiedade gerada pelo vírus e pelo isolamento. Somou-se ainda a total incerteza quanto à própria realização dos exames — notadamente o Enem, pai de todos os vestibulares. Entre março e julho de 2020, o exame agendado inicialmente para novembro foi suspenso sem uma decisão se iria mesmo acontecer. O MEC realizou uma consulta aos estudantes de todo o Brasil sobre o assunto para depois ignorar o resultado e agendar as provas presenciais para os dias 17 e 24 de janeiro (o Enem digital, em fase experimental, está marcado para 31 de janeiro e 7 de fevereiro). “Os vestibulandos foram pegos pela pandemia em uma idade já turbulentíssima, com o Enem e a vida adulta que ele representa batendo à porta, e experimentaram uma incerteza durante meses que levou ao estresse”, afirma Pedro Castilho, pedagogo e pesquisador do Observatório da Juventude da UFMG. “É uma geração que sentirá os impactos do coronavírus para sempre”.

O primeiro gatilho de ansiedade, para usar um termo comum entre adolescentes, foi a incerteza sobre o próprio vírus. Parece que foi há anos, mas em março não se sabia quase nada sobre o Covid-19. A sensação de que a morte estava à espreita era generalizada. Muitos adolescentes viram parentes e pessoas próximas caírem doentes, às vezes de forma fatal. No mesmo mês, as escolas fecharam. Algumas delas já tinham experiência com plataformas online de estudo e conseguiram fazer uma transição rápida para o ensino à distância, mas a maioria teve dificuldade para fazê-lo — há quem não ofereça alternativa aos alunos até hoje. Da mesma forma, a muitos estudantes faltava o básico em casa: de acordo com o Inep, órgão do MEC que aplica o Enem, 20% dos inscritos na edição de 2019 não tinham acesso à internet em seu domicílio, e 50% não possuíam computador. “A pandemia acabou exacerbando a desigualdade de condições entre estudantes de classes sociais diferentes”, analisa Castilho. 

A situação em casa também não é fácil. A reclamação mais comum é a da falta de socialização com os amigos na escola, mas o isolamento cobra seu preço de muitas formas. Os esportes, por exemplo, fundamentais para aliviar a tensão e proporcionar boas noites de sono, também foram restringidos. Por outro lado, a convivência forçada com familiares 24 horas ao dia por meses a fio, justamente em um período da vida em que os jovens estão buscando se distanciar dos pais e se aproximar dos amigos, causa estragos. “Aqui em casa foi todo mundo para o psicólogo via Zoom, porque a tensão estava demais”, conta a carioca Ana Gabriela Laranjeira, 18 anos, que tenta pela segunda vez entrar na faculdade de Medicina. “Por sugestão dela, hoje nós fazemos meditação e exercícios de respiração de manhã e à noite para lidar com toda essa loucura de Enem com pandemia”.

A meditação em família pode não funcionar para todo mundo, mas o envolvimento de pais e pessoas próximas no esforço dos estudantes para fazer um bom Enem é fundamental. Até o dia da prova, é importante criar e respeitar o espaço de estudo deles em casa, facilitar seu descanso e boa alimentação, e tentar blinda-los de problemas da casa que aumentem seu estresse ou tire a concentração para o exame. “Pais também devem ouvir os jovens, deixá-los falar sobre seus problemas, pois sem a escola eles ficam sem tem com quem se abrir”, sugere Aline de Oliveira, psicóloga do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. “E lembrá-los que não só eles, mas todos os vestibulandos passaram por problemas parecidos durante o ano”. E pensar que, em algumas semanas, toda a angústia pré-Enem terá ficado para trás.

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