No dia 12 de março, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tomou uma decisão drástica para enfrentar a disseminação do novo coronavírus: a suspensão de atividades presenciais não essenciais. Naquele momento, a Unicamp foi a primeira universidade a tomar tal decisão, e recebi diversos elogios pela decisão corajosa, mas também muitas críticas de diversos setores, principalmente governamentais. Diversas universidades, e depois governos, logo seguiram o mesmo caminho pois a pandemia avançava em ritmo cada vez mais acelerado.

Imediatamente iniciamos a discussão sobre a possibilidade de manutenção das atividades didáticas. Como proceder para mudar de modo tão rápido um padrão baseado em aulas presenciais para um modelo de atividades remotas? Como garantir o pleno acesso digital a estudantes que não dispõem de bons equipamentos, de acesso à internet ou mesmo de um local apropriado para estudar? Como manter a qualidade e a excelência de nossos cursos? Como proceder com a avaliação? Naturalmente todas essas perguntas surgiram e soluções tiveram que ser discutidas e decididas rapidamente.

Uma parcela da academia ergueu a bandeira do cancelamento ou adiamento das atividades didáticas do semestre. Algumas universidades no Brasil e no mundo escolheram esse caminho, que pode ser o mais prático de imediato, tem consequências muito sérias no curto, médio e longo prazo. Nessa situação, como ficam os estudantes que precisam se formar para garantir um emprego ou o projeto de pós-graduação? Como ficam os bolsistas que têm atividades ligadas à disciplinas? E os exames de ingresso para as próximas turmas? Tudo será deslocado em seis meses a partir de agora? Muitas instituições que pararam em um primeiro momento estão repensando a decisão, pois ninguém sabe quanto a quarentena vai durar e quais serão as consequências de criar um lapso tão extenso no tempo.

As discussões sobre a divisão digital, que amplificaria as desigualdades sociais existentes em nossa sociedade, têm se mostrado incompletas. As fortes desigualdades sociais já são bastante explícitas no ensino presencial. Por exemplo, temos diversos estudantes que demoram duas ou três horas para chegar até o campus. Saem de casa às 5h, tomam dois ou três ônibus e às vezes chegam tarde na aula das 8h porque ainda passam no bandejão para tomar o café da manhã. Alguns de seus colegas de classe acordam às 7h30, se alimentam bem, pegam o próprio carro e ainda reclamam por ter muito trânsito na entrada da universidade. Na volta para casa, o mesmo se repete. Onde está a justiça social nessa situação? Ou seja, infelizmente vivemos em um país com imensas desigualdades, e é justamente o papel da universidade, por meio da pesquisa, extensão e formação de recursos humanos, contribuir para diminuir essa brecha. E continuar as atividades é justamente parte dessa equação.

Vivemos em um país com imensas desigualdades, e é justamente o papel da universidade contribuir para diminuir essa brecha

De uma maneira muito pragmática, se a universidade conseguir prover aos estudantes mais carentes equipamentos adequados (notebooks, tablets) e bons planos para internet (chips, bolsas de atividades não presenciais etc.), podemos ter um quadro mais equânime. Em outras palavras, creio que é possível buscar soluções para as questões da inclusão digital que permitam mitigar situações de desigualdade. Desde o começo das atividades não presenciais, a Unicamp tem feito esse esforço. Abrimos um canal de doações e empréstimos de equipamentos, negociamos com as operadoras de telefonia planos mais baratos, compramos chips pré-pagos, entre outras providências. Criamos uma bolsa emergencial de atividades não-presenciais. Estamos fazendo um esforço significativo para não deixar nenhum estudante para trás. Do lado dos professores, também estamos oferecendo ferramentas e capacitação para transformar as suas aulas para o novo modelo, que exige diversas adaptações. Vale destacar que temos plena consciência de que não é a situação ideal, mas que devemos agir no modo de “atividades remotas emergenciais”.

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Um contexto relevante neste momento é que as universidades públicas têm sofrido ataques sem precedentes, que variam desde acusações completamente falsas em redes sociais, até instauração de CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Para cada xingamento contra as universidades, há um grupo de matemáticos estudando um modelo para melhorar a eficiência de respiradores. Para cada compartilhamento nas redes sociais espalhando baixarias em fake news, há pesquisadores publicando artigos científicos em revistas internacionais e construindo uma nação mais inovadora. Além disso, os hospitais universitários são também responsáveis pelo atendimento direto, 100% gratuito, de uma parcela significativa da população. O embate para simplesmente seguir fazendo o próprio trabalho é desgastante, mas não há outra opção a não ser reafirmar continuamente o papel relevante da universidade pública.

Falta de consenso entre as autoridades e comportamento de risco da população transforma o isolamento numa bagunça. Leia nesta ediçãoReprodução/VEJA

Interromper as atividades, mesmo em situação tão crítica como a que estamos vivendo, se mostra na minha visão um verdadeiro tiro no pé. É justamente neste momento que devemos juntar forças, fazer o que melhor sabemos e mostrar para toda a sociedade que conseguimos ser mais relevantes do que nunca, que conseguimos manter a universidade viva e ativa, e que o país precisa de nós. A Unicamp tem sido beneficiada com mobilização de empresas, pessoas físicas e outros setores com doações de diversas naturezas. Convém destacar a agilidade com que os magistrados e promotores públicos prontamente destinaram verbas provenientes de acordos e multas com a Justiça e com o Ministério Público para diversas atividades de ensino, pesquisa e assistência médica. Esses recursos, de diversas fontes, estão sendo muito úteis para a compra de insumos, de equipamentos de proteção individual e até equipamentos para a realização de testes e pesquisas em nossas unidades e hospitais.

Conseguimos em pouquíssimo tempo mobilizar a comunidade universitária e a sociedade de maneira geral para ajudar a universidade no enfrentamento da pandemia e dos diversos problemas decorrentes dela. Essa é uma boa novidade deste momento, que nos enche de fôlego e esperança. Apesar das turbulências sanitárias, econômicas e políticas do momento a sociedade se une em prol de uma causa comum, que é o bem-estar de sua população, onde a ciência e a universidade são fundamentais.

*Marcelo Knobel é reitor da Unicamp

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