Na maioria das obras, o resíduo da construção civil aparece no orçamento como despesa de remoção: caçambas, transporte e taxas de destinação. Elmar Varjão, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, considera que essa forma de enxergar o entulho esconde a parte mais cara do problema, porque cada metro cúbico descartado contém material que foi comprado, transportado e, muitas vezes, aplicado antes de virar sobra.
A Resolução nº 307 do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o Conama, estabelece que o gerador é responsável pelos resíduos que produz e define uma ordem de prioridade: primeiro não gerar, depois reduzir, reutilizar, reciclar e, por último, dar destinação final adequada. A ordem da norma sugere uma comparação útil entre duas maneiras de gerir o mesmo canteiro.
Resíduo como custo de descarte ou como indicador de perda
Na gestão convencional, o objetivo é retirar o entulho com o menor custo possível e dentro da lei. O controle se encerra na nota fiscal da transportadora e no comprovante de destinação.
Na gestão orientada à eficiência, o resíduo vira dado. Quanto foi gerado, em que etapa, de qual material e por qual motivo. Elmar Varjão observa que essa leitura transforma o entulho em indicador de produtividade, porque o volume descartado costuma acompanhar falhas de planejamento, de compatibilização de projeto e de controle da execução.
O que cada classe revela sobre a obra
A Conama 307 divide os resíduos em quatro classes, e cada uma aponta para uma origem diferente. A classe A reúne concreto, argamassa, blocos, telhas e solo, materiais que podem ser reciclados como agregados. Volumes altos dessa classe costumam indicar quebra de peças, cortes improvisados, sobras de concretagem e retrabalho.
A classe B inclui plástico, papelão, metais, vidro e madeira, em boa parte embalagens e fôrmas, e expõe a qualidade da logística de suprimentos. A classe C, de materiais sem reciclagem economicamente viável, como o gesso, pede controle rigoroso de aplicação. A classe D, de resíduos perigosos como tintas, solventes e óleos, exige segregação e destinação próprias.
Canteiro artesanal e canteiro industrializado
A diferença entre os dois modelos fica clara quando se compara o modo de produzir. No canteiro artesanal, blocos são cortados no local, fôrmas de madeira são montadas e desmontadas várias vezes e o concreto é lançado em grande número de peças menores.
Na construção industrializada, com pré-moldados e estruturas metálicas, boa parte da produção migra para a fábrica, onde o controle dimensional é maior e as sobras são reaproveitadas no próprio processo. O canteiro passa a ser lugar de montagem, com menos cortes, menos fôrmas e menos entulho. Elmar Varjão aponta que esse ganho depende de um projeto concebido para a industrialização desde o início, e não adaptado a ela depois de pronto.
Não gerar vem antes de reciclar
A reciclagem tem valor, mas ocupa a quarta posição na hierarquia da norma. Reciclar um bloco quebrado é melhor do que descartá-lo em local impróprio, porém o material, a mão de obra e o transporte já foram pagos.
Para Elmar Varjão, a prioridade de não geração é, na prática, uma exigência de planejamento. Ela começa na compatibilização de projetos, passa pela paginação de alvenarias e revestimentos e chega à programação de concretagens com volume ajustado à necessidade real.
Sustentabilidade que se mede no balanço
Sustentabilidade e eficiência operacional costumam ser tratadas como agendas separadas, uma ligada à imagem, outra ao resultado. Elmar Varjão salienta que, no canteiro, as duas se medem pela mesma régua.
Uma obra que gera menos resíduo consome menos material, ocupa menos caminhões, exige menos mão de obra de limpeza e pressiona menos os aterros das cidades. Reduzir o entulho, portanto, é ao mesmo tempo um compromisso ambiental e uma das formas mais concretas de melhorar a margem de uma construtora.
