Um município pode ter mamógrafo instalado e, ainda assim, deixar mulheres sem diagnóstico a tempo. Para o ex-secretário de Saúde Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o acesso à mamografia no Brasil esbarra menos na existência do equipamento e mais no que acontece antes e depois dele. Convocação, distância, laudo, biópsia e início do tratamento formam uma cadeia, e basta um elo frágil para que a detecção precoce do câncer de mama perca efeito.
Equipamento disponível nem sempre significa exame realizado
Um mamógrafo depende de técnico treinado, manutenção regular, controle de qualidade e radiologista para emitir o laudo. Quando falta qualquer um desses elementos, o aparelho opera abaixo da capacidade ou fica parado. Equipamento sem contrato de manutenção, por exemplo, pode passar meses à espera de uma peça.
A organização da agenda também pesa. Serviços que funcionam apenas em um turno, sem fluxo integrado com as unidades básicas, acumulam horários vagos em alguns dias e filas em outros. A capacidade instalada, portanto, só se converte em exames quando gestão de pessoal, manutenção e regulação caminham juntas.
Distância e distribuição pesam no acesso à mamografia
Os mamógrafos tendem a se concentrar em cidades maiores e em regiões com mais serviços de saúde. Para a mulher que vive em município pequeno ou em área rural, fazer o exame pode significar uma viagem de horas, perda de um dia de trabalho e necessidade de acompanhante ou transporte público escasso.
Unidades móveis são uma das respostas a esse descompasso. Em 2025, o Ministério da Saúde anunciou 27 carretas de saúde da mulher em 22 estados, dentro do programa Agora Tem Especialistas. Na visão de Vinicius Rodrigues, estruturas itinerantes ampliam o alcance, mas precisam estar ligadas a um sistema capaz de dar sequência aos resultados alterados.
O intervalo entre o laudo e a biópsia
Um exame com achado suspeito inicia uma segunda etapa, muitas vezes mais difícil do que a primeira. A paciente precisa de consulta com especialista, exames complementares e biópsia. Cada encaminhamento envolve uma nova fila, e a soma dessas esperas pode transformar uma lesão inicial em doença mais avançada. Em muitos casos, a mulher precisa refazer o trajeto até a cidade de referência a cada nova etapa.
A legislação brasileira estabelece prazos para reduzir esse tempo. Desde 2019, exames necessários à confirmação diagnóstica de suspeita de câncer devem ser realizados em até 30 dias. Após o diagnóstico, a Lei dos 60 dias, de 2012, determina que o tratamento no SUS comece nesse prazo.
Regras de prazo existem, o desafio é cumpri-las
Cumprir esses prazos depende de informação. Sem sistemas que registrem quando o exame foi feito, quando o laudo saiu e quando a paciente foi encaminhada, o gestor não consegue identificar onde o atraso acontece. A fila se torna invisível, e a responsabilidade se dilui entre serviços diferentes.
Monitorar o tempo entre cada etapa permite corrigir rotas. Sob a perspectiva de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, indicadores simples, como a proporção de mulheres com laudo suspeito que chegaram à biópsia dentro do prazo, dizem mais sobre a qualidade do rastreamento do que o número total de mamografias realizadas no ano.
Qual é o papel da atenção primária?
A unidade básica de saúde é quem conhece a população do território. Cabe a ela identificar as mulheres na faixa etária indicada, convidá-las para o exame, conferir se o resultado chegou e procurar quem não voltou. Agentes comunitários de saúde têm papel central nessa busca ativa.
Com a ampliação do rastreamento no SUS para mulheres de 50 a 74 anos e a garantia de acesso a partir dos 40, a demanda tende a crescer. Na leitura de Vinicius Rodrigues, a expansão só se traduz em menos mortes se vier acompanhada de coordenação entre atenção primária, serviços de imagem e centros de tratamento, com cada mulher acompanhada do convite ao resultado final.
